Revista LiambaInformação e cultura canábica.
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O Polígono da Maconha é o nome pelo qual ficou conhecida uma área do sertão nordestino, especialmente no entorno do rio São Francisco, marcada pelo cultivo clandestino de cannabis. A expressão parece desenhar um território com fronteiras precisas. Na prática, reúne municípios, histórias e realidades bastante diferentes.
Para entender como essa região ganhou fama, é preciso olhar além das plantações destruídas nas operações policiais. A história passa pela agricultura familiar, pelas disputas por terra e renda, pelas mudanças no curso da economia rural e por uma política de drogas que transformou a planta em mercadoria ilegal.
Seu núcleo mais conhecido está no sertão de Pernambuco e em áreas próximas do norte da Bahia, no Submédio São Francisco. Cabrobó, Orocó, Belém do São Francisco, Floresta, Santa Maria da Boa Vista e Carnaubeira da Penha aparecem com frequência nas pesquisas sobre o tema. Salgueiro também ocupa lugar importante nessa história.
Não existe, porém, uma lista única de cidades. Um estudo de Adriano Oliveira, Jorge Zaverucha e Ernani Rodrigues, disponível no Ministério da Justiça, já chamava a atenção para diferenças entre os recortes utilizados por pesquisadores e instituições públicas.
Algumas delimitações incluem municípios como Tacaratu, Petrolândia e Itacuruba. Outras ampliam a área conforme os circuitos de produção e circulação da maconha. Por isso, localizar uma cidade nesse mapa não significa afirmar que toda a sua economia dependa da cannabis, nem que seus moradores participem do mercado ilegal.
O cultivo e o uso da planta no Nordeste não começaram com a expansão do tráfico nas últimas décadas do século XX. Pesquisas históricas encontram uma presença mais antiga, ligada a práticas sociais e a comunidades rurais e ribeirinhas. Confundir essas experiências com a estrutura posterior do comércio clandestino apaga mudanças importantes.
Uma pesquisa da historiadora Lilian da Rosa, publicada em 2025 na revista Novos Estudos Cebrap, analisou documentos oficiais e notícias sobre ações de erradicação entre 1943 e 1983. O levantamento identifica uma concentração inicial de registros no Baixo São Francisco, em Alagoas, seguida da interiorização dos cultivos em direção ao sertão pernambucano.
Essa trajetória ajuda a entender o papel da proibição na própria formação do território produtor. A destruição de lavouras em determinados lugares não encerrava necessariamente a atividade: os plantios reapareciam em outras áreas. O estudo interpreta essa dispersão como uma manifestação do chamado efeito balão, quando a pressão sobre um ponto desloca a atividade para outro.
O rio atravessa a história regional como fonte de água, alimento, circulação e trabalho. No caso da cannabis, o acesso à água também ajuda a explicar a presença de lavouras em um ambiente semiárido. Falar apenas de calor ou de solo fértil deixa de fora essa condição decisiva.
Um estudo publicado em 2021 no Anuário do Instituto de Geociências examinou 2.227 registros georreferenciados de ocorrências de cultivo em Pernambuco, obtidos pela Polícia Federal entre novembro de 2010 e junho de 2018. Nesse conjunto, 72,74% dos pontos estavam em ilhas do São Francisco.
O número descreve a base analisada pelos pesquisadores. Não é uma medição de todas as plantações existentes, nem um retrato automático da situação atual. Ainda assim, mostra por que a relação entre água e território é indispensável para compreender a história do Polígono.
A resposta não cabe na ideia de que os agricultores simplesmente encontraram uma planta lucrativa. A comparação entre cultivos envolve acesso à terra, crédito, compradores, transporte e condições de trabalho. Onde a renda agrícola é instável, uma atividade clandestina pode aparecer como complemento de sobrevivência, apesar dos riscos que carrega.
Em pesquisa publicada na revista Dilemas em 2011, Paulo Cesar Pontes Fraga e Jorge Atilio Silva Iulianelli analisam a cannabis como uma economia que se articulou aos cultivos legais no Vale do São Francisco. A noção de cultivo de compensação ajuda a explicar por que parte das famílias passou a recorrer à planta para completar a renda.
Já uma revisão de literatura publicada em 2024 no periódico Thoreauvia, da Univasf, destaca a combinação de dificuldades da agricultura tradicional, conflitos locais e distribuição desigual dos benefícios de investimentos públicos. Seu argumento é que as condições de expansão desse mercado precisam ser examinadas dentro da história econômica da região.
Isso não autoriza tratar pobreza como causa automática do crime. Municípios com dificuldades semelhantes podem ter trajetórias distintas. O que as pesquisas permitem discutir é a combinação específica entre vulnerabilidade, redes comerciais e oportunidades de renda, sem transformar uma condição social em identidade criminal.
A região também viveu mudanças profundas com os grandes projetos de infraestrutura. Para as famílias atingidas por barragens, a reorganização da vida envolveu deslocamentos, reassentamentos e lutas pelo acesso às condições necessárias para voltar a produzir.
A tese de Ana Maria Motta Ribeiro, defendida na UFRRJ em 2008, examina o Pólo Sindical do Submédio São Francisco e a entrada do cultivo de maconha em sua agenda. O trabalho conecta a questão à mobilização rural e às disputas sobre o próprio significado do território.
Esse olhar revela uma dimensão frequentemente ausente das notícias de apreensão: havia trabalhadores organizados reivindicando terra, produção e direitos. Reconhecer essa história amplia a compreensão sobre quem vivia na região e sobre os conflitos que antecederam ou acompanharam a expansão do mercado clandestino.
A notoriedade nacional do Polígono cresceu sobretudo nas décadas de 1980 e 1990, em meio à expansão dos plantios, à violência e ao fortalecimento das ações policiais. Uma reportagem da Agência Pública, publicada em 2017, reconstitui conflitos locais e descreve a Operação Mandacaru, realizada entre o fim de 1999 e o início de 2000. O relato mostra como segurança pública e vida cotidiana passaram a se cruzar nas cidades da região.
Mas agricultor, intermediário, financiador e comerciante não ocupam necessariamente a mesma posição nessa cadeia. Essa distinção faz diferença quando se avaliam a distribuição dos lucros, a exposição à violência e o alcance das políticas públicas.
As mulheres também integram essa história. Um artigo de Fraga e Joyce Keli do Nascimento Silva, publicado em 2017 na revista Tempo Social, analisou relatos de vida de seis mulheres envolvidas no cultivo ou no comércio de drogas no Vale do São Francisco. A pesquisa mostra trajetórias e efeitos da repressão que não aparecem quando todo o mercado é descrito como um bloco uniforme.
O cultivo clandestino continua sendo identificado no sertão. Em comunicado de 9 de outubro de 2026, a Polícia Federal informou a destruição de cerca de 612 mil pés de maconha na fase XIX da Operação Carcará, realizada entre 21 e 30 de setembro. O órgão citou áreas de municípios pernambucanos historicamente associados ao Polígono.
O registro confirma a continuidade da atividade, mas não permite calcular sozinho seu tamanho ou sua participação no abastecimento brasileiro. Pés erradicados e droga apreendida são resultados de operações, não um censo da produção. Mudanças de fiscalização e de alcance territorial também afetam o que passa a ser registrado.
A necessidade de estudar essas transformações aparece na atuação do Observatório dos Plantios Ilícitos no Brasil, apresentado pela UFJF em maio de 2026. A iniciativa acompanha tanto os cultivos rurais extensivos quanto o crescimento de outras modalidades, como os ambientes fechados.
A complexidade do mercado também é reconhecida por instituições internacionais. Um estudo lançado pelo UNODC e pelo Ministério da Justiça em 2022, com coleta em quatro estados, entre eles Pernambuco, examinou fatores como comercialização, preços, pagamento e circulação das drogas. Essa abordagem ajuda a substituir explicações únicas por perguntas sobre cada etapa da cadeia.
O nome Polígono da Maconha pode servir de porta de entrada para conhecer essa história. Também pode esconder o trabalho agrícola, as mobilizações sociais e a diversidade das comunidades que vivem ali. Ler a região apenas pela clandestinidade reproduz um retrato incompleto.
Na cobertura de cannabis, recuperar essas diferenças é uma maneira de aproximar o debate da experiência brasileira, como propõe a Revista Liamba. No sertão do São Francisco, a história da planta continua entrelaçada às perguntas sobre quem tem acesso à terra, à renda e ao direito de contar sua própria trajetória.